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Porque isso aqui já virou um fotolog mesmo…

Da janela do quarto da minha irmã, numa terça fria. Algum vizinho resolveu usar o prédio ao lado de parede, enquanto desenhava no computador. Ah, como eu amo São Paulo. Tem cada coisa mágica, ainda que silenciosa….

Eu amo…

Outra coisa que eu amo das minhas origens bauruenses e dessa época de inverno esquisito:

Ipês explodindo em flores. Esse é o bebêzinho que minha mãe plantou na frente de casa. (e que eu fotografei atrasada para pegar o ônibus para são paulo)

O tal do meio quarto

Duas quadras daqui, saíam na rua uma moça de 24 e um moço de 23 com um pacotinho de buchechas gordas nas mãos.

E, ops, chegamos aqui.

Contrariando todos meus planos rígidos de menina prodígio… Não sou diplomata do Itamaraty. Nem promotora pública comprando briga com empresas poluidoras. Nem médica achando a cura da malária no Amazonas. E muito menos a Fátima Bernardes, apresentando o jornal nacional. Ou nenhuma dessas coisas que fariam minha mãe encher a boca com orgulha para falar – “minha filha é advogada júnior no escritório Neto de Tal”.

Não casei com o amor da minha vida, nem o par perfeito e muito menos com o amorzinho da adolescência.

Ah, tantas coisas que não fiz.

Talvez por causa de novos objetivos… como essa pequena empreitada pessoal de tentar se equilibrar pela vida com leveza.

Além disso, é legal fazer o balanço de que ainda bem que a gente desiste de alguns planos no meio do caminho, né. Ufa.

the holy cup

Esses dias, sonhei com deus.

E ele era um homem de olhos bons e mãos sofridas, dedilhando um violão.

The body breaks

Você exigiu que eu fechasse os olhos e pulasse de uma vez. Nem precisou pedir muito e eu já estava a caminho.

Lá da água, fiquei esperando. Achei que fosse mesmo vir. Mas, quando foi sua vez de saltar você não pôde.

Eu nadei, boiei um pouco, engoli umas águinhas e acabei saindo.

Agora, é você quem tem o pezinho coberto de água até a canela, me encarando com olhos de um incentivo quieto.

E o triste é que eu não sei. Se ainda posso jogar o corpo nesse amor.

Afinal, não seria a hesitação uma forma do corpo dizer não? Os pensamentos têm pesado tanto.

E tudo que eu queria era um caminho feito de “sim”, lembra.

Wake up call, no meio da noite

Então, tá. Eu nunca gostei de Alberto Caeiro, acho existencialista demais para a minha mania de pessoa que deixa a vida passar enquanto sonha de olhos abertos. Mas, tá aí. Ou, quer dizer, eu tô aqui. E não lá. E tem que lidar com o que se apresenta, deixar de idealizar. A toca do coelho não é uma opção. Não é. E talvez seja hora de dar cabo àquelas idéias todas para o apartamento que me vieram, assim, e logo foram esquecidas, porque seguidas por outros devaneios. Ou, de sentir o que é agora, parar de pensar que talvez não seja no mês que vem e finalmente curtir a mão dele, com os dedos passeando sobre a minha.

Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.
Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer
.

Ah, essas conversas mudancionais que  pegam a gente. (Porque eu leio como se ele tivesse sentando num banco de jardim, trocando idéia e tentando me passar a sabedoria de quem vê diferente)

De volta

Não, eu não quero que as pessoas realmente morram. Lógico que não. É que tem gente que estressa tanto… é uma reação desproporcionada, mas tão natural. Meio que desejando que essas pessoas pentelhas sumam da minha frente. Que elas sumam do prédio para sempre. Que elas abram o portão da garagem para ele que está esperando. Que elas deixem a esposa visitar o marido em Presidente Bernardes. Esse tipo de coisas, sabe. Claro que são diferentes, mas não me faz sentido vê-las negadas. O mundo seria lindamente tão mais agradável. Puf, num instante.

Mas, enfim, o que irrita mesmo. É saber que tudo isso é pequeno demais. Que o que importa tá protegido. Que chaves de carros podem ser refeitas. Que mães podem ser acalmadas. Que outras tantas coisas absurdas só são. E que logo irei para cama, encontrá-lo, para dormir no abraço. Me irrita porque EU SEI tudo isso. E perco a paciência mesmo assim. Porque, por demorados minutos, deixo aquilo levar o melhor de mim.

Enfim, passou. E é bom passar aqui para desabafar o peito. Tava com saudade.

Maior que a perna

Eu tive a coragem de trilhar o caminho de volta, esse dedo ninguém pode me apontar mais. E a vida me sorri com ironia.

Finalmente, levanto os olhos ao meu redor, parei de fingir o sorriso e não chamo mais outro nome em segredo. Encontro tantos. Lábios, abraços e carinhos. Cada dia é uma história, que eu encaro rindo da minha bobeira de menina nova nesse mundo. Dando a cara para bater. Só para comprovar que ninguém bate, não. Isso é, se você mesma não o fizer.

Daí eu encontro. Um.

Tento levar na mesma leveza de até agora. E, levo. Com desejos impetuosos e descompromissados. Tão sinceros, esses aí.

Até que, opa, ele quer conversar. E põe na mesa tudo que eu costumava trazer comigo. Aquelas certezas que nem sei se trago mais. Muito provável que sim, mas não quero nem ver que ainda existem, em mim. De que as coisas possuem um significado maior. Que a alma tá em tudo que o corpo se mete a fazer. E chama de relação o tudo em que decidimos nos meter nos últimos dias. E explica como tudo é sério e simbólico, que precisa de cuidado.

Que merda. Quando eu decido levar as coisas com mais leveza. Decido parar de ser a esquisita e proponho-me a não pensar tanto em tudo. O mundo vem. E joga na cara. As verdades que, apesar de ter sido ele quem disse, sempre foram minhas.

E eu não queria mais. Tudo tão sério. Ou profundo. Queria ir, assim, indo mesmo. Para onde o vento decidisse. Até que ele parasse de soprar e me deixasse em algum lugar. Simples, sem pensar. O que não significa que eu cruzaria toda ponte que aparecesse no caminho. Porque, né, pontes são construídas sobre penhascos.

Eu estava já andando no meio de uma, acho. E ele acabou de escancarar o penhasco embaixo. Só para lembrar-me que, putz, quanto mais eu andar nela, mais chance de cair. Pensando seriamente que ainda é cedo.

 

Passinhos para trás.

Antes que a vida acorde

Evito a cama como o Cascão fugia da água.

(Mas, ah, que história mal contada essa das bancas de jornal da minha infância. Ninguém pode sobreviver sem água, ninguém. Nem personagem de gibi. Eu vivia imaginando um conta-gotas grande o qual alguém pingava na boca dele com o maior cuidado assim que ele saía de cena.)

Fico rondando todas coisas e tarefas que precisaria fazer, sem realmente fazer nenhuma. Só ensaio, mesmo. Assisto a tela, esperando chegar aquela hora em que quase cochilo em pé para me deitar. Porque aí, né, a cabeça já tá cansada demais para ficar divagando por aí. Para pensar nos braços e abraços que podiam ser. Pensar no por que nego não fala oi. Analisar por que não quero ser meiga, e, ainda, sou. Lembrar de todas, uma por uma, besteiras que disse ao longo do dia na tentativa de passar um alguém diferente. E, mano, me perguntar por que ainda não aprendi a ficar quietinha, de boa.

Porque, daí, eu vou fazer o de sempre. Prometer pro espelho que amanhã eu vou sentar na cadeira de direção. Não vai ter bandeira. Nem essa coisa idiota de deixar o emaranhado de vontades e esperança me levar para onde quiser, só para eu perceber que, opa, a queda é livre. Vou me comprometer a virar mestre da arte da resignação.

E tudo tão ridículo, porque feito com o desejo secreto de que a vida prove-me errada. E aí? Tô esperando.

Jours etranges

A cerveja desce e traz à tona. Tudo aquilo que se movimenta debaixo da pele. Que, putz, a gente nunca quer encarar. Até porque, a estranheza desses dias é tanta. E eu quero esperar, eu estar de volta. E não nesse embrulho que o remédio me coloca. Numa bolha que protege do lá fora. Ao preço de perder o toque. O tato. Uma lepra, quase. Porque é tão difícil discernir os estímulos quando não se sente. Ou se sente pela metade, só.

Já são uns três meses desde que ele morreu. Na estrada, voltando para Bauru. A mesma idade do meu irmão. Uma tragédia absoluta. Sem mencionar a família do outro carro que assistiu ao pai morrer. Ele gostava do Fiftie’s tanto quanto eu. Saía com a minha irmã, fazendo do Higienopólis um pedacinho de Bauru em São Paulo. Eu vejo a dor nela. Me dói vê-la tentando lidar com algo tão insensato, isso de sobreviver.

E a banca de jornal na frente do nosso prédio. Cujo dono sempre mandava um sonoro “Mocinha, como você está” toda vez que eu passava. Ele era tão fofo e atencioso. Que, nos meus dias de preguiça do mundo, eu passava rápido, torcendo para que ele não me visse. Você sabe, né, tem dia que forçar o sorriso de volta fica custoso. Enfim, morreu. E agora vejo os dois filhos adolescentes, cada qual com dezenas de quilos a menos, se revezando na banca. Era para estarem escolhendo a profissão, novos amores. Mas, estão lá, gastando a vida numa banca virada para a parede.

Ah, sei lá. Só desabafando, mesmo.

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