Maior que a perna

01.11.09

Eu tive a coragem de trilhar o caminho de volta, esse dedo ninguém pode me apontar mais. E a vida me sorri com ironia.

Finalmente, levanto os olhos ao meu redor, parei de fingir o sorriso e não chamo mais outro nome em segredo. Encontro tantos. Lábios, abraços e carinhos. Cada dia é uma história, que eu encaro rindo da minha bobeira de menina nova nesse mundo. Dando a cara para bater. Só para comprovar que ninguém bate, não. Isso é, se você mesma não o fizer.

Daí eu encontro. Um.

Tento levar na mesma leveza de até agora. E, levo. Com desejos impetuosos e descompromissados. Tão sinceros, esses aí.

Até que, opa, ele quer conversar. E põe na mesa tudo que eu costumava trazer comigo. Aquelas certezas que nem sei se trago mais. Muito provável que sim, mas não quero nem ver que ainda existem, em mim. De que as coisas possuem um significado maior. Que a alma tá em tudo que o corpo se mete a fazer. E chama de relação o tudo em que decidimos nos meter nos últimos dias. E explica como tudo é sério e simbólico, que precisa de cuidado.

Que merda. Quando eu decido levar as coisas com mais leveza. Decido parar de ser a esquisita e proponho-me a não pensar tanto em tudo. O mundo vem. E joga na cara. As verdades que, apesar de ter sido ele quem disse, sempre foram minhas.

E eu não queria mais. Tudo tão sério. Ou profundo. Queria ir, assim, indo mesmo. Para onde o vento decidisse. Até que ele parasse de soprar e me deixasse em algum lugar. Simples, sem pensar. O que não significa que eu cruzaria toda ponte que aparecesse no caminho. Porque, né, pontes são construídas sobre penhascos.

Eu estava já andando no meio de uma, acho. E ele acabou de escancarar o penhasco embaixo. Só para lembrar-me que, putz, quanto mais eu andar nela, mais chance de cair. Pensando seriamente que ainda é cedo.

 

Passinhos para trás.


Antes que a vida acorde

20.10.09

Evito a cama como o Cascão fugia da água.

(Mas, ah, que história mal contada essa das bancas de jornal da minha infância. Ninguém pode sobreviver sem água, ninguém. Nem personagem de gibi. Eu vivia imaginando um conta-gotas grande o qual alguém pingava na boca dele com o maior cuidado assim que ele saía de cena.)

Fico rondando todas coisas e tarefas que precisaria fazer, sem realmente fazer nenhuma. Só ensaio, mesmo. Assisto a tela, esperando chegar aquela hora em que quase cochilo em pé para me deitar. Porque aí, né, a cabeça já tá cansada demais para ficar divagando por aí. Para pensar nos braços e abraços que podiam ser. Pensar no por que nego não fala oi. Analisar por que não quero ser meiga, e, ainda, sou. Lembrar de todas, uma por uma, besteiras que disse ao longo do dia na tentativa de passar um alguém diferente. E, mano, me perguntar por que ainda não aprendi a ficar quietinha, de boa.

Porque, daí, eu vou fazer o de sempre. Prometer pro espelho que amanhã eu vou sentar na cadeira de direção. Não vai ter bandeira. Nem essa coisa idiota de deixar o emaranhado de vontades e esperança me levar para onde quiser, só para eu perceber que, opa, a queda é livre. Vou me comprometer a virar mestre da arte da resignação.

E tudo tão ridículo, porque feito com o desejo secreto de que a vida prove-me errada. E aí? Tô esperando.


Jours etranges

29.08.09

A cerveja desce e traz à tona. Tudo aquilo que se movimenta debaixo da pele. Que, putz, a gente nunca quer encarar. Até porque, a estranheza desses dias é tanta. E eu quero esperar, eu estar de volta. E não nesse embrulho que o remédio me coloca. Numa bolha que protege do lá fora. Ao preço de perder o toque. O tato. Uma lepra, quase. Porque é tão difícil discernir os estímulos quando não se sente. Ou se sente pela metade, só.

Já são uns três meses desde que ele morreu. Na estrada, voltando para Bauru. A mesma idade do meu irmão. Uma tragédia absoluta. Sem mencionar a família do outro carro que assistiu ao pai morrer. Ele gostava do Fiftie’s tanto quanto eu. Saía com a minha irmã, fazendo do Higienopólis um pedacinho de Bauru em São Paulo. Eu vejo a dor nela. Me dói vê-la tentando lidar com algo tão insensato, isso de sobreviver.

E a banca de jornal na frente do nosso prédio. Cujo dono sempre mandava um sonoro “Mocinha, como você está” toda vez que eu passava. Ele era tão fofo e atencioso. Que, nos meus dias de preguiça do mundo, eu passava rápido, torcendo para que ele não me visse. Você sabe, né, tem dia que forçar o sorriso de volta fica custoso. Enfim, morreu. E agora vejo os dois filhos adolescentes, cada qual com dezenas de quilos a menos, se revezando na banca. Era para estarem escolhendo a profissão, novos amores. Mas, estão lá, gastando a vida numa banca virada para a parede.

Ah, sei lá. Só desabafando, mesmo.


Da série Ó céus Ó vida

20.08.09

Tô irritada, de tpm, só querendo me jogar numa panela de brigadeiro. Mas, não não, mocinha. Não pode. Hipoglicemia, né.

Virei uma daquelas pessoas chatas que respondem, com um sorriso amarelo, a um pedaço maravilhoso de bolo de chocolate oferecido pelo aniversariante: Obrigada, eu não como açúcar.

O fim de relacionamento mais difícil ever.

Nutella, o problema sou eu, não é você. Eu sempre vou te amar.


de quem fica

19.08.09

Você diria que o pior é voltar. Mas, o difícil não é voltar. Essa, na verdade, é a parte gostosa. Saber que vai, enfim, estar em casa. Poder passear de braços dados com sua mãe por aí, fazendo inveja para as moças que estão longe e sentem saudades. Gargalhar de besteiras com sua irmã. Ligar para as amigas sem fazer DDI ou Skype e só conversar de coisas absolutamente irrelevantes. Fazer seu pai comer o dobro do que ele comeria se estivesse sozinho. Dar beijo e saber que você vai ver já já quem se beija. Não, essa parte é fácil. Uma delícinha, na verdade.

O difícil… Bem, é saber que voltou para ficar. Porque para quem passou tanto tempo andando de lá para cá, de cá para lá, fazendo de qualquer coisa gostosa a sua casa, é definitivamente estranho. Bate um medo. Porque quando está tudo bonitinho, quando tudo tem lugar, as roupas estão expostas no armário, os sapatos fazem fila e se dorme toda noite na mesma cama, fica estupidamente fácil aborrecer-se com coisas bobas. Ou pequenas. Sem valor. Mochilando, você não liga se não acha aquela blusa para usar, porque, hello, você tem umas três opções de blusa, mesmo. Sem falar que você não aguenta usar mais as mesmas roupas, tudo bem se elas desaparecem. E, tem TANTA coisa mais importante para ver. A cultura, a língua, a história e o povo. Cidades que desfilam diante dos olhos, uma atrás da outra. E o tempo parece tão ridiculamente pouco. Só porque você nunca se sentiu tão viva. E, claro, você deseja mais. O quanto der, o quanto te deixarem, o quanto as pernas aguentarem, o quanto os olhos resistirem abertos. Apaixonada.

E, bem, saudades, sabe. De tudo ainda que tenho para ver. Enquanto eu tô aqui, tirando o pó dos armários.


À deriva – II

09.08.09

Então, engraçado entrar aqui, ver o post debaixo,que eu escrevi nem sonhando com o filme. Ao qual assisti esses dias. Na quinta-feira, para ser mais exata. Depois da sopa de cebola de um bar gls (eu deveria dizer lgs?), se bem que lá era só l mesmo. Acabamos lá sem querer, a Bela Paulista tava com uma fila gigante e eu pensei em ir naquele lugar com um cartaz de sopas e caldinhos, que eu sempre pensei que queria conhecer toda vez que passava em frente. Mas, enfim, o filme. Não sei se preciso dizer que achei genial. Aquele final. Porque é A conclusão, né. À única que uma pessoa sensata pode chegar. Talvez não sensata, propriamente, mas um outro artigo definidor que me escapa no momento. (porque falar que alguma pessoa é sensata pressupõe que todas as demais não o são. E quem sou eu para chamar alguém de insensato, afinal?) Putz, tô divagando, volto à conclusão. De que. Num mundo em que seu pai mantém ardentes relações com a vizinha e sua mãe bebe horrores para conseguir levar a vida na qual ela acorda todos os dias, ainda sobra o ter que lidar com a própria adolescência, sua sexualidade e  o mundo cheio de gente que tá pronta para machucar. A saída, então, é boiar. Estufar a barriga, olhar para cima. Emprestar a força da água que te afunda para se sustentar. Tudo a um preço desafiador. O de desistir de controlar o rumo. Aceitar os nãos que aparecem, as perdas e a vida que dificilmente alguém imaginou para si. Confiar, enfim.

Pois é, meu filho. Deixa a vida me levar, vida leva eu.


Por onde anda?

27.07.09

Ando aqui, por aí, voltando. Nas palavras de um autor, “à deriva, na ressaca de um mundo acabado, de que só restava a saudade”. Logo mais eu volto.


sabedoira suiça

04.07.09

No no, missy. The only thing that I really have to do in life is die. Other than that, I can choose all the rest in between. Simple like that.

Sabine, pouco se lixando para o habitual martírio de pensar que toda escolha implica renúncias e que é um alívio de vez em quando jogar a culpa no destino, na expectativas alheias, nas convençoes sociais, etc etc. Pago um pau.


Do que eu já (quase) sei.

17.05.09

Fechei os olhos. Dava medo de olhar, podia estragar tudo. Ficava repetindo, com toda a força, para mim mesma “I believe, I believe”. O céu era aquele, meio alaranjado, que a gente vê quando medita. Sentia meu corpo levantar, como se tivesse muito menos peso no ar. Ia ganhando velocidade, cada vez mais. Abri os olhos, hesitante, o mais perto do céu não parava de chegar. Mágico. Eu podia voar.

 Acho que foi o sonho mais lindo que eu já tive. Acordei encantada. Talvez seja só isso mesmo o que falta. Acreditar.


Chez Momo

28.04.09

Talvez seja só o vinho marroquino. Mas, hoje, sentada na mesma mesa com os dois de alguns posts abaixo, não foi tão difícil assim olhar nos olhos. Depois, não foi difícil ver-me nela, que me irrita de um tanto que eu nunca gostaria aceitar em mim, porque eu gosto dela tanto, também. Além, quis distribuir beijos. Àquela que acabou de achar amor bom. Sem querer, peguei-me olhando para eles, uma hora no jazz, um sentando no colo do outro, fazendo graça, só para se conquistar um pouco mais.. Pois é, talvez seja só o vinho marroquino. Mas, tá tudo tão gostoso. Que sinto como se pudesse dividir-me em pedacinhos de sentir-se inteira por aí. Não que eu não tenha a saudade, essa já faz parte de mim. Mas, sei lá, as preocupações ficam pequenininhas e invade aquela calma boa. De que tá tudo bem. Agora. E é só isso o que importa. Ou o tudo isso, não sei.